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O ‘estilo’ do Corinthians e falta de estilo do futebol brasileiro atual

Bem, foi mais ou menos o que se esperava, com o Corinthians em momento algum tendo sua vantagem ameaçada. A Ponte entrou em campo bastante consciente de que seria muito difícil, senão impossível, reverter os 3 a 0 do primeiro jogo. E, em consequência, jogou para o gasto. Pela honra, digamos assim. Que foi salva com o gol de Marllon, no final, empatando o jogo. O Corinthians havia aberto a contagem com Romero, o contestado Romero, vejam só.

Enfim, para quem não tinha nada com o assunto, e só queria ver um bom jogo, foi um espetáculo muito pobre. Como a Ponte, depois do fiasco de Campinas, não tinha confiança em si, não conseguiu botar fogo na partida. O Corinthians administrou. Ou seja, fez o que sabe fazer de melhor, cozinhar o galo, defender-se bem e com consistência.

Joga um futebol que não encanta. Agora, reconheço que essa avaliação é subjetiva. Para o corintiano, que lotou o Itaquerão, o time deve ter jogado bem à beça. Mesmo porque Carille segue a cartilha do mestre Tite e também a de Mano. Tite evoluiu; é hoje o grande treinador brasileiro e está fazendo um grande trabalho na seleção brasileira. Mas todos conhecem sua trajetória e sabem que gosta de construir um time a partir da defesa. Faz assim equipes sólidas e se adapta ao material que tem nas mãos. Na seleção, pode se esbaldar pois conta com brasileiros dos quatro cantos do mundo entre os selecionáveis. Os melhores. Num time, é diferente. Faz-se a omelete com os ovos disponíveis.

Hoje o PVC, o Paulo Vinícius Coelho, escreve uma coluna interessante na Folha. Começa por dizer que o Corinthians ganhou o campeonato jogando em seu estilo, para entrar em seguida num sofisma e dizer que na verdade nenhum time brasileiro tem hoje um estilo, uma forma de jogar, uma assinatura futebolística. Cita o Santos dos tempos do presidente (já falecido) Luis Alvaro, que insistia no “DNA ofensivo” do time da Vila. E diz que, desde que voltou da série B, em 2009, “O Corinthians é compacto, seguro e letal”. Foi forjado por Mano e aperfeiçoado por Tite, que levou o clube ao título mundial.

Acho que essa questão deve ser mais bem discutida. O que é esse “DNA”? Bem, é uma maneira de jogar aceita pela torcida e depurada pelo tempo. Sancionada por jogadores que fizeram História no clube, por títulos, por façanhas, por partidas históricas. Algo que se vai decantando e solidificando de maneira progressiva.

O caso do “DNA ofensivo” do Santos, enaltecido pelo seu presidente, se deve a uma tradição de ataques poderosos, que começa já antes da era Pelé. Mas é com Pelé, com Coutinho, Mengálvio, Pepe, Zito, Dorval & Cia que se solidifica e surge a fama de uma das grandes equipes de todos os tempos. A maior de todas, dirão os santistas. Isso ficou na memória da torcida e, reparem, até mesmo na parte da torcida que nem era nascida na época. Essa maneira de jogar renasce, com júbilo, em algumas ocasiões, como nas equipes de 2002, como Diego e Robinho, e 2010, com Neymar e Ganso, times logo desfeitos, mas que tiveram momentos inesquecíveis de brilho. Nesses momentos o clube se reencontra consigo mesmo. Volta a ter identidade e assinatura reconhecíveis. São mágicos.

Todos os grandes clubes são assim. O Palmeiras, com a grande Academia dos anos 60, renascida na época da Parmalat. Times que criaram o “DNA” do jogo bem jogado, com elegância, com trato refinado da bola. A imagem maior talvez seja de Ademir da Guia, o grande. Talvez seja essa imagem do passado, o seu DNA de Academia que o Palmeiras atual, muito bem forrado de dinheiro, esteja tentando fazer agora. Ainda não deu liga. Apesar do título nacional do ano passado, não criou uma equipe capaz de atravessar gerações na memória do torcedor.

O Corinthians tem que tipo de DNA? Durante muito tempo a marca característica foi a raça, a entrega, a dedicação, algo, em campo, equivalente à paixão da Fiel na arquibancada. Mas o Timão do Doutor Sócrates podia ser raçudo e tratar bem a bola ao mesmo tempo, porque as coisas não são incompatíveis. Assim como o Corinthians do ano 2000, que tratava bem a bola, embora fosse um tanto monótono sob a orientação de Parreira. Com a queda e a volta da 2ª divisão, como lembra PVC, a consistência tornou-se a tônica, quase uma obsessão. Como a dizer que jamais voltaria a cair e que, pelo contrário, faria dessa consistência, desse jogar seguro, a sua marca maior.

Agora vence o Paulistão com essa equipe mediana, de pouca expressão individual, mas que sabe o que pretende em campo. Taticamente, o Corinthians é muito forte.

Dito isso, me parece óbvio que o tal do DNA de cada clube só pode ser honrado na medida das posses. Da grana disponível. O Santos pode ter o DNA ofensivo da era Pelé, mas formou, ao longo dos anos 1980, algumas das piores equipes da sua história. Oscila muito e, apesar de apostar muito na base, nem sempre pode contar com a aparição de garotos geniais. Que, aliás, pouco tempo ficam no clube.

Desse modo, os “estilos” tendem mesmo a se tornar muito diluídos no futebol brasileiro, pois as equipes se formam e se desfazem ao sabor dos ventos. Quando há grana (raro) contratam-se bons atletas ou mantêm-se as revelações. Ao primeiro sinal de crise, todos são postos à venda. Recomeça-se do zero. E assim a fila anda. Para recuperar a vitalidade de antes, esse salutar conflito entre estilos definidos, seria preciso recuperar a autonomia financeira diante do mundo.

Mas isso, hoje em dia, no momento em que escrevo, parece nada mais que o sonho distante de uma noite de verão.

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O Santos vai bem na Libertadores mas o mistério da Vila permanece

O Santos foi bem, mas não apenas porque ganhou. Verdade, voltou a apresentar erros, em especial na defesa. Os dois gols colombianos foram de falhas do setor defensivo.

Mas o Peixe teve méritos e pressionou bastante o adversário. Dessa pressão constante vieram os três gols, em particular o terceiro, do zagueiro Lucas Verissimo, quando o empate já parecia inevitável.

Vi nisso tudo uma mudança de disposição do time, que às vezes me parecia meio desanimado e incapaz de enfrentar situações adversas. Apostava tudo na posse de bola mas, muitas vezes, se tornava estéril e monótono, incapaz de uma jogada surpreendente.

Neste jogo da Libertadores, esteve duas vezes em vantagem e nas duas, por falhas, cedeu empate. Mas não se curvou e foi à luta. Num desses lances, a bola sobrou para Verissimo marcar seu primeiro gol como profissional. E deixar seu time em primeiro no grupo.

Foi uma vitória dessas que dão têmpera a um time. E, outra coisa, os jogadores foram incentivados pela torcida o tempo todo – e sob chuva, no segundo tempo. Foi uma partida com clima de Libertadores – e isso é um elogio.

O jogo, como se sabe, foi no Pacaembu, o que sempre levanta polêmica na Baixada. O time é de Santos, diz uma facção, e deve jogar em seu campo, na mítica Vila Belmiro. O argumento contrário tem também suas razões. Em São Paulo há mais público e a torcida da Capital tem direito a ver seu time. Além do mais, faz parte da tradição do Santos jogar fora de sua cidade como mandante. Lembremos que os títulos mundiais foram decididos no Maracanã.

Dito isso, reconheça-se: a Vila é a Vila. Insubstituível.

Mas há um argumento que tem sido irrespondível – a Vila tem recebido públicos muito pequenos. Se o time é da cidade, por que a cidade não o prestigia?

Na véspera de Santos x Santa Fé encontrei, em uma padaria, um ex-craque do Santos. Não digo o nome porque não tenho autorização para isso. Papeamos um pouco e comentei que o jogo ia ser em São Paulo. Ele me disse: “Lógico! Já temos 25 mil ingressos vendidos. Aqui são sempre os mesmos 5 ou 6 mil por jogo. Você vai à Vila e tem mais gente vendo o jogo nos bares na frente da televisão que dentro do estádio.”

Como não lhe dar razão? Talvez seja o preço alto a assustar as pessoas? Mas já fui a jogo com promoção, ingressos baratos e mesmo assim não lotou. Outro dia, sócio não pagava. Mesmo assim não encheu.

Será que as pessoas têm preguiça de ir ao campo? Sei lá. Acho que a diretoria deveria fazer uma pesquisa para entender o que acontece. Porque, francamente, a Vila Belmiro é o melhor estádio que existe para você assistir a uma partida de futebol, o que torna o fenômeno ainda mais misterioso.

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O sistema nervoso da Ponte a traiu

Difícil dominar todas as variáveis do futebol; por isso mesmo as previsões costumam derrubar todos os “videntes”, por experientes que sejam. Aliás, quem é experiente mesmo não faz previsões em futebol. Sabe que é o caminho mais curto para quebrar a cara.

Enfim, quem poderia adivinhar que a Ponte tomaria um baile do Corinthians no primeiro jogo da decisão? Que tivesse dificuldades para vencer, vá lá. Não é fácil mesmo fazer gol nessa defesa do Corinthians. Um empate seria aceitável. Mesmo uma derrota por placar mínimo.

Agora, um 3 a 0 logo de cara? E sem ter feito nada para merecer placar diferente? Isso depois de, na sequência, eliminar dois grandes, Santos e Palmeiras – este com o mais badalado elenco do futebol brasileiro? Não vi ninguém apostar numa quase goleada do Corinthians. Mas ela aconteceu.

E, digam o que disserem, o título de 2017 já está quase decidido. Digo “quase” para não me contradizer. Afinal, impossível é palavra que não existe no jogo da bola. Agora, que é pra lá de difícil a Ponte reverter esse placar, ainda mais jogando na casa do adversário, diante da Fiel, isso ninguém duvida. Nem o próprio pessoal da Ponte.

O que aconteceu no primeiro jogo, afinal? Eu diria, sem muito medo de errar: o sistema nervoso da Ponte a traiu. Quando viu o adversário do outro lado e pensou que teria de passar por ele para sair da fila centenária, tremeu. Deve ter lembrado da ancestral decisão de 1977, quando os atuais jogadores nem eram nascidos. Mas sabe como é a tradição – ela passa de uma geração a outra. Isso pode ter minado a confiança. Quem perde a confiança não joga. Ou joga muito aquém da sua capacidade.

Agora a vaca já foi para o brejo. Ou quase.

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Corintihans x Ponte e 40 anos de história

Ainda me lembro da decisão entre Corinthians e Ponte Preta no Campeonato Paulista de 1977. Um micro-ônibus (acho que ainda não existiam as vans) foi fretado por um grupo de amigos corintianos e se dirigiram ao estádio. Nós, que torcíamos para outros times, ficamos esperando a turma no bar que frequentávamos. Quer dizer, num dos bares em que batíamos ponto após as aulas. Na ocasião, foi o Rei da Batidas, na entrada da USP, onde todos estudávamos.

Voltaram como de uma batalha vitoriosa. O Corinthians havia saído da fila, uma indigna fila sem títulos, que o martirizava desde o Campeonato Paulista de 1954. Daí o apelido de “campeão dos centenários”. Brincávamos ao dizer que o seriam campeões de novo apenas em 2054. Era um tempo em que amizades não se desfaziam por causa de brincadeiras como esta.

Saímos pela noite paulistana e, já de madrugada, no Gigetto, encontramos o presidente Vicente Mateus e Marlene, que nos ofereceram um conhaque para enfrentar a noite fria. Como era o Corinthians que estava pagando, tomei um ótimo Courvoisier francês.

Enfim, depois daquele Corinthians e Ponte tumultuado por coisas até hoje inexplicáveis, como a expulsão de Rui Rei logo no início da disputa, muita água correu. O Corinthians, que já era um gigante de torcida, cresceu e ficou enorme em todos os aspectos, inclusive no financeiro. Teve o Dr. Sócrates e a Democracia Corintiana. Ganhou seu estádio. Venceu vários títulos e não apenas o Paulista, que na época, para nós, era o mais importante de todos. Foi campeão do mundo e quebrou o tabu na Libertadores.

Já a Ponte continuou sendo aquele time que todos respeitam. Tem sua torcida, seu estádio, sua tradição. Às vezes monta times poderosos, ou, na atual condição do futebol brasileiro, times bem organizados e interessantes. Falta-lhe um título para valer. Que pode começar a vir a partir de amanhã. Time, a Ponte tem para ser campeã. Não pode se apavorar. Tem de jogar com calma e objetividade, como fez contra Santos e Palmeiras.

E precisa enfiar uma coisa na cabeça: terá com ela a maior torcida do Estado, a maior torcida de toda a sua existência. Tirando a do Corinthians e a do Guarani, que vai secá-la, a Ponte contará a seu lado todas as outras torcidas do Estado, a começar pelas do São Paulo, Palmeiras e Santos.

Que as finais seja interessantes e bem jogadas.

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Estranho jogo

O futebol é um jogo estranho. Quem duvida disso? Nesta semana tivemos a goleada do PSG sobre o Barcelona por 4 a 0. Mas não é sobre esse jogo que quero falar, já que meu interesse por futebol europeu é apenas teórico. Quer dizer, frio.

Quero falar sobre algo mais próximo, muito mais: a vitória do São Paulo sobre o Santos por 3 a 1, em plena Vila Belmiro. O “em plena”, no caso, não é figura de retórica, expressão de ênfase ou qualquer outra dessas inutilidades linguísticas. Todos sabem que o Santos é muito forte jogando em sua casa. Por quê? Não sei direito. Deve ter algo a ver com a mística do estádio, uma memória inconsciente da presença de Pelé, coisas assim. Claro que todo mandante tem vantagem. Mas a vantagem do Santos, na Vila, sempre parece maior. Não é impressionismo. Os números, que nem sempre falam direito, no caso confirmam.

Pois bem, o jogo de quarta-feira começou justificando esse favoritismo. O Santos jogava como um relógio. Afinado. Dava gosto de ver o entrosamento. Passou pela minha cabeça um pensamento deste tipo: “O time está sendo recompensado por ter mantido a maior parte do elenco e o técnico”. Logo saía o primeiro gol, depois de bela jogada de Vitor Bueno, que entortou o são-paulino Buffarini e colocou na cabeça de Copete, que marcou. Eram 10’ do primeiro tempo.

O Santos continuou a jogar seu bom futebol até que uma “bola vadia” (como dizia Nelson Rodrigues) viria a mudar o panorama. Bola cruzada na área, o bom lateral Zeca faz um pênalti infantil em Gilberto, e pronto – estava decretado o empate com a cobrança precisa de Cuevas.

O que deveria ter feito o Santos após sofrer o empate? Nada. Deveria ter continuado a jogar como antes. De maneira serena, criativa e regular. A vitória viria com tranquilidade, supõe-se.

Mas não foi o que se viu. Com o empate, o panorama mudou, talvez de maneira sutil, a princípio. O São Paulo ganhou autoconfiança; o Santos debilitou-se. Aquele gol de Cuevas não era apenas um empate. Assinalava o início de um novo jogo.

No intervalo, Rogério Ceni fez boa substituição. Trocou Neílton por Luís Araújo e passou a dominar o jogo. A vitória veio com naturalidade, com dois gols, duas pontadas, ambas de Luís Araújo. Neste jogo chamado futebol, uma única substituição pode alterar o conjunto. É o que ocorre, nos melhores como nos piores casos. Sorte de Rogério? Ou competência? Você decide.

O fato é que 2º tempo foi outra coisa; mas algo se alterara lá atrás, quando o Santos tomou o empate e não soube assimilar o golpe.

Por isso se diz que times de fato maduros e autoconfiantes são raros. Quais são eles? Aqueles que sofrem um gol e continuam a jogar como antes. Porque sabem que estavam jogando certo e tomar um gol faz parte da vida, não justifica uma mudança de projeto. São esses mesmos raros times os que, no campo do adversário, jogam como se estivessem em casa. Porque não veem motivo para alterar seu modo de jogar apenas porque levam vaia ou sofrem pressão. Também é coisa da vida. 

São muito poucos esses times. O Barcelona é um deles. Ou era. Antes do tranco do Paris St. Germain, pelo menos.

Estranho jogo.  

 

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Adeus, São Silvestre

Deve ser a última coluna do ano. Afinal, escrevo no dia 30. O que resta para o mundo esportivo de 2016? A São Silvestre? Mas o que é a São Silvestre depois que passou a ser corrida durante o dia e agora, pior, pela manhã? Perdeu toda aura. Pelo menos para os mais veteranos, como eu.

A São Silvestre era disputada à noite, de modo que a sua chegada coincidisse com a entrada do Ano Novo. Era muito bonito. Testemunhei a várias, mesmo porque meus avós moravam nas imediações da Avenida Paulista e íamos, em família, ver a chegada.

Havia um frisson nessa coincidência entre o fim da prova e o ano que começava. Era como a celebração de um novo período, com suas esperanças, festejado por uma proeza atlético. Naquele tempo, também convém dizer, muitos brasileiros ganhavam a prova. Ou, pelo menos a disputavam de maneira renhida.

Agora, com as imposições comerciais da Globo, a corrida foi
descaracterizada. Já ouvi outras versões, nenhuma das quais me convenceu. Seriam exigências técnicas, para a corrida se equiparar a outras do mundo, etc. Ora, para fazê-lo precisava tirar exatamente o seu diferencial, que era a de ser uma corrida noturna? Não cola.

Passaram para a tarde. E agora, começa às 9h da manhã. Quem se interesssa? Eu não. Só ligaria a TV para ver caso chovesse e não desse praia. Com o calor que anda fazendo, essa possibilidade é quase nula. Então, vamos à praia.

2016 é um ano a ser esquecido. Ou, por outro lado, a ser lembrado, com todas as suas dores, pois nos ensinou muito, sobre nós mesmos e sobre a natureza do nosso país. A consciência dói mas é necessária.

E, como não custa desejar, bom 2017 para todo mundo.

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Somos todos Chape

O momento é de luto e silêncio. Tantos mortos nessa tragédia aérea – atletas, comissão técnica, jornalistas, tripulação. Todos jovens ou ainda jovens, no auge de suas vidas. A Chape viajava para o jogo mais importante de sua história, contra o Atlético de Medellin, final da Copa Sul-Americana, quando ocorreu a fatalidade. Vamos buscar as causas do acidente, porque é necessário mesmo que se busque, mas também porque compreender, de certa forma, atenua a dor. Dá uma certa racionalidade ao luto, mas não traz os mortos à vida.

Todos aprendemos a respeitar a Chape ao longo do Campeonato
Brasileiro. Time fora do eixo principal do futebol, difícil de bater, bem montado, vinha surpreendendo a todos. Ao mesmo tempo, foi avançando na Sul-Americana, tirou o San Lorenzo nas semifinais e chegou à final, contra todos os prognósticos. No meio do caminho, a tragédia.

Que evoca aquela mais antiga, do Torino, em 1949, que liquidou o time de Turim e ceifou a base da seleção italiana num voo de volta de Lisboa. Minha família, de origem italiana, falava muito desse acidente fatal. A tragédia ficou como cicatriz do futebol italiano. Há um memorial em Turim em homenagem aos mortos, evocado pelo cineasta Marco Bellocchio em um dos seus últimos filmes, Fai Bei Sogni (Tenha Belos Sonhos). Numa cena tocante, o personagem principal acompanha o pai na visita ao memorial do Torino, numa cerimônia que se realiza todos os anos na data do acidente.

Agora só nos resta lamentar, mandar nosso abraço de solidariedade aos familiares e à cidade de Chapecó. E ficarmos em silêncio por um momento de meditação sobre a finitude humana. Em meio ao rumor do mundo, às vaidades e frivolidades, somos todos da mesma família, irmãos e mortais.

Neste momento, somos todos Chape

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