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Estranho jogo

O futebol é um jogo estranho. Quem duvida disso? Nesta semana tivemos a goleada do PSG sobre o Barcelona por 4 a 0. Mas não é sobre esse jogo que quero falar, já que meu interesse por futebol europeu é apenas teórico. Quer dizer, frio.

Quero falar sobre algo mais próximo, muito mais: a vitória do São Paulo sobre o Santos por 3 a 1, em plena Vila Belmiro. O “em plena”, no caso, não é figura de retórica, expressão de ênfase ou qualquer outra dessas inutilidades linguísticas. Todos sabem que o Santos é muito forte jogando em sua casa. Por quê? Não sei direito. Deve ter algo a ver com a mística do estádio, uma memória inconsciente da presença de Pelé, coisas assim. Claro que todo mandante tem vantagem. Mas a vantagem do Santos, na Vila, sempre parece maior. Não é impressionismo. Os números, que nem sempre falam direito, no caso confirmam.

Pois bem, o jogo de quarta-feira começou justificando esse favoritismo. O Santos jogava como um relógio. Afinado. Dava gosto de ver o entrosamento. Passou pela minha cabeça um pensamento deste tipo: “O time está sendo recompensado por ter mantido a maior parte do elenco e o técnico”. Logo saía o primeiro gol, depois de bela jogada de Vitor Bueno, que entortou o são-paulino Buffarini e colocou na cabeça de Copete, que marcou. Eram 10’ do primeiro tempo.

O Santos continuou a jogar seu bom futebol até que uma “bola vadia” (como dizia Nelson Rodrigues) viria a mudar o panorama. Bola cruzada na área, o bom lateral Zeca faz um pênalti infantil em Gilberto, e pronto – estava decretado o empate com a cobrança precisa de Cuevas.

O que deveria ter feito o Santos após sofrer o empate? Nada. Deveria ter continuado a jogar como antes. De maneira serena, criativa e regular. A vitória viria com tranquilidade, supõe-se.

Mas não foi o que se viu. Com o empate, o panorama mudou, talvez de maneira sutil, a princípio. O São Paulo ganhou autoconfiança; o Santos debilitou-se. Aquele gol de Cuevas não era apenas um empate. Assinalava o início de um novo jogo.

No intervalo, Rogério Ceni fez boa substituição. Trocou Neílton por Luís Araújo e passou a dominar o jogo. A vitória veio com naturalidade, com dois gols, duas pontadas, ambas de Luís Araújo. Neste jogo chamado futebol, uma única substituição pode alterar o conjunto. É o que ocorre, nos melhores como nos piores casos. Sorte de Rogério? Ou competência? Você decide.

O fato é que 2º tempo foi outra coisa; mas algo se alterara lá atrás, quando o Santos tomou o empate e não soube assimilar o golpe.

Por isso se diz que times de fato maduros e autoconfiantes são raros. Quais são eles? Aqueles que sofrem um gol e continuam a jogar como antes. Porque sabem que estavam jogando certo e tomar um gol faz parte da vida, não justifica uma mudança de projeto. São esses mesmos raros times os que, no campo do adversário, jogam como se estivessem em casa. Porque não veem motivo para alterar seu modo de jogar apenas porque levam vaia ou sofrem pressão. Também é coisa da vida. 

São muito poucos esses times. O Barcelona é um deles. Ou era. Antes do tranco do Paris St. Germain, pelo menos.

Estranho jogo.  

 

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Adeus, São Silvestre

Deve ser a última coluna do ano. Afinal, escrevo no dia 30. O que resta para o mundo esportivo de 2016? A São Silvestre? Mas o que é a São Silvestre depois que passou a ser corrida durante o dia e agora, pior, pela manhã? Perdeu toda aura. Pelo menos para os mais veteranos, como eu.

A São Silvestre era disputada à noite, de modo que a sua chegada coincidisse com a entrada do Ano Novo. Era muito bonito. Testemunhei a várias, mesmo porque meus avós moravam nas imediações da Avenida Paulista e íamos, em família, ver a chegada.

Havia um frisson nessa coincidência entre o fim da prova e o ano que começava. Era como a celebração de um novo período, com suas esperanças, festejado por uma proeza atlético. Naquele tempo, também convém dizer, muitos brasileiros ganhavam a prova. Ou, pelo menos a disputavam de maneira renhida.

Agora, com as imposições comerciais da Globo, a corrida foi
descaracterizada. Já ouvi outras versões, nenhuma das quais me convenceu. Seriam exigências técnicas, para a corrida se equiparar a outras do mundo, etc. Ora, para fazê-lo precisava tirar exatamente o seu diferencial, que era a de ser uma corrida noturna? Não cola.

Passaram para a tarde. E agora, começa às 9h da manhã. Quem se interesssa? Eu não. Só ligaria a TV para ver caso chovesse e não desse praia. Com o calor que anda fazendo, essa possibilidade é quase nula. Então, vamos à praia.

2016 é um ano a ser esquecido. Ou, por outro lado, a ser lembrado, com todas as suas dores, pois nos ensinou muito, sobre nós mesmos e sobre a natureza do nosso país. A consciência dói mas é necessária.

E, como não custa desejar, bom 2017 para todo mundo.

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Somos todos Chape

O momento é de luto e silêncio. Tantos mortos nessa tragédia aérea – atletas, comissão técnica, jornalistas, tripulação. Todos jovens ou ainda jovens, no auge de suas vidas. A Chape viajava para o jogo mais importante de sua história, contra o Atlético de Medellin, final da Copa Sul-Americana, quando ocorreu a fatalidade. Vamos buscar as causas do acidente, porque é necessário mesmo que se busque, mas também porque compreender, de certa forma, atenua a dor. Dá uma certa racionalidade ao luto, mas não traz os mortos à vida.

Todos aprendemos a respeitar a Chape ao longo do Campeonato
Brasileiro. Time fora do eixo principal do futebol, difícil de bater, bem montado, vinha surpreendendo a todos. Ao mesmo tempo, foi avançando na Sul-Americana, tirou o San Lorenzo nas semifinais e chegou à final, contra todos os prognósticos. No meio do caminho, a tragédia.

Que evoca aquela mais antiga, do Torino, em 1949, que liquidou o time de Turim e ceifou a base da seleção italiana num voo de volta de Lisboa. Minha família, de origem italiana, falava muito desse acidente fatal. A tragédia ficou como cicatriz do futebol italiano. Há um memorial em Turim em homenagem aos mortos, evocado pelo cineasta Marco Bellocchio em um dos seus últimos filmes, Fai Bei Sogni (Tenha Belos Sonhos). Numa cena tocante, o personagem principal acompanha o pai na visita ao memorial do Torino, numa cerimônia que se realiza todos os anos na data do acidente.

Agora só nos resta lamentar, mandar nosso abraço de solidariedade aos familiares e à cidade de Chapecó. E ficarmos em silêncio por um momento de meditação sobre a finitude humana. Em meio ao rumor do mundo, às vaidades e frivolidades, somos todos da mesma família, irmãos e mortais.

Neste momento, somos todos Chape

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O que significa o Palmeiras campeão

Antes de mais nada, parabéns à coletividade alviverde. Acho que é até desnecessário dizer que o título é merecido. Um clube que passou a maior parte do campeonato na liderança não merecia menos que a taça. Foi o melhor e o mais regular. E, nos pontos corridos, regularidade é tudo. Pontos bestamente perdidos não se recuperam, como alguns outros times parecem acreditar. Um dos segredos do Palmeiras foi ter entendido, para valer, o que significa disputar um campeonato desse jeito. Todas as partidas são igualmente importantes e devem ser disputadas como se fossem uma final de campeonato. E ponto. Quem tem esse espírito vence, quem não tem fica a arrumar desculpas.

Mas é claro que seriedade não basta. É preciso ter elenco, boa gestão e direção. O Palmeiras teve tudo isso. Não foi um time brilhante, mesmo porque não existem times brilhantes no futebol brasileiro. Mas foi compacto, regular. Quando um dos seus setores não funcionava direito, outro vinha compensar. E assim foi levando o campeonato em linha reta, sem dar uma chance real para os rivais. Estes, quando chegaram perto de ameaçar, tropeçaram, os casos mais evidentes sendo os do Flamengo e do Santos. Nenhum deles tinha estofo para desbancar o líder.

O Palmeiras hoje tem um bom elenco. Perde Gabriel Jesus, mas esta é a realidade do futebol brasileiro. Deve tentar conservar os outros. E manter Cuca, se for possível. Tem um estádio maravilhoso, localizado em região central da cidade – o que é uma senhora vantagem. E foi abraçado por seus torcedores e sócios, o que é mais importante. Mais que um título, a se somar entre tantos outros que tem (só de Brasileiros este é o nono), o Palestra pode ter aberto um ciclo virtuoso, em que uma vitória serve de base à seguinte.

Convém aproveitar.

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O capitão

Quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará ao futebol sua pretensão à condição de arte? Assim escreve o historiador inglês Eric Hobsbawm em seu livro clássico A Era dos Extremos – o Breve Século XX. Esses “dias de glória” por certo incluem as conquistas de 1958 e 1962, mas, sobretudo a de 1970, quando o Brasil praticou um jogo de bola lindo, envolvente e precursor do futebol contemporâneo – não à toa servindo de inspiração ao técnico Pep Guardiola para a montagem do Barcelona. Uma seleção cheia de estrelas, sem dúvida, a começar pela mais fulgurante de todas, Pelé, mas na qual havia também Tostão, Gérson, Rivellino, Clodoaldo, Jairzinho & Cia. Praticamente um craque em cada posição. O conjunto era comandado por um capitão digno desta patente – Carlos Alberto Torres, que nos deixou esta semana aos 72 anos, vítima de infarto.

Carlos Alberto não era apenas o “Capita”, como o chamavam, mas ele próprio estrela de primeira grandeza dessa constelação de boleiros de altíssimo nível. Lateral diferente para a época, defendia, atacava e armava o jogo ao sair com a bola. Fazia tudo isso não apenas porque reunia fôlego e condições técnicas para tanto, mas porque dispunha daquela inefável qualidade chamada de “leitura de jogo”. Via o campo como o grande mestre de xadrez vê o tabuleiro. De maneira tática, antecipando jogadas, vendo na frente. Era um técnico dentro de campo e capitão por outra de suas características, esta a da personalidade: a capacidade de liderança exercida junto a seus companheiros. Naquela época, para ser capitão de um time era preciso ser um homem maduro e seguro de si. Não daria para imaginar um capitão que sentasse na bola e chorasse antes de uma cobrança de pênaltis. Ou que fosse um esquentadinho mais preocupado com rixas e selfies nas redes sociais do que com o interesse coletivo.

Carlos Alberto era esse ponto de equilíbrio entre as estrelas. Uma liderança natural, que não precisava se impor no grito, como dele falou Gérson, outro que não tem papas na língua. O que não significa que fosse santinho. Pelo contrário. Havia, em seu tempo, a concepção, hoje politicamente incorreta, de que o grande jogador deveria “saber se defender” em campo. Eufemismo para o “bateu, levou”. Pelé era adepto da prática: gênio da bola, desde muito cedo entendeu que, com sua capacidade técnica fora do comum, não duraria muito se não soubesse se impor aos zagueiros violentos. Carlos Alberto também não aliviava. Na partida contra a Inglaterra, talvez a mais difícil da Copa do México, deu um senhor chega prá lá em Francis Lee, represália a um lance em que o inglês teria sido desleal com o goleiro Félix. O Capita se impunha e defendia seus comandados. Mas “sabia bater” de modo a não ser expulso e prejudicar o time. Pode-se questionar a metodologia, mas o fato é que, a partir de sua intervenção junto a Lee, o jogo, que sob a complacência do árbitro Abraham Klein descambava para a violência entre os dois times, voltou aos eixos e terminou bem. Melhor para nós, de toda forma: 1 x 0, gol de Jairzinho, servido por Pelé.

Na final da Copa, Brasil x Itália, ambos eram já bicampeões. O vencedor ficaria com a Jules Rimet em definitivo. O Brasil vencia por 3 a 1 e o jogo se aproximava do desfecho. Houve então aquela série de lances mágicos. Bola recuperada, Clodoaldo dribla três adversários, dá a Rivellino, que lança Jair na esquerda, este entrega a Pelé na entrada da área, que, sem olhar, rola para a direita, sabendo que o companheiro de clube estaria entrando a toda velocidade para chutar. Caprichosa, a bola ainda dá uma levantadinha numa irregularidade do campo do Estádio Asteca e se apresenta como manteiga para o chute de Carlos Alberto, com o lado de fora do pé. Uma bomba, que morreu na rede italiana de Albertosi . 4 a 1, vitória garantida. Minutos depois, o próprio Capita erguia a taça e a beijava. O gesto entrou para a iconografia do futebol mundial.

Daí, por tudo que representava, a repercussão nacional e mundial da morte de Carlos Alberto Torres. Jogador símbolo de uma seleção que entrou para a lenda do futebol mundial, ele próprio passou a fazer parte da História ao comandá-la. O gol marcado por ele na final é altamente representativo do que deve ser o futebol-arte quando pensado sem fantasias simplistas. Ao contrário do que se pensa de maneira ingênua, o futebol-arte não é apenas resultado da soma de individualidades talentosas. É muito mais do que isso: são individualidades que jogam como time, pondo-se a serviço do interesse coletivo. O todo é maior que a soma das partes. Não é jogo bonitinho; é jogo eficaz. Um gol como esse, no qual a bola passa pelos pés de alguns do maiores talentos individuais do futebol brasileiro até terminar nos de Carlos Alberto é altamente simbólico. Era o comandante dando assinatura final daquela que foi, talvez, a mais bela página do futebol brasileiro em todos os tempos.

Estupendo jogador de clubes, Carlos Alberto se consagrou em duas agremiações em particular – Fluminense, que o revelou, e Santos, no qual jogou durante dez anos ao longo da fase de ouro do esquadrão da Vila Belmiro, ao lado de Pelé, Coutinho, Pepe, Clodoaldo e outros. Teve passagem pelo Botafogo e, assim como seus amigos Pelé e Beckembauer, foi jogar no Cosmos de Nova York no final da carreira. Técnico vencedor de Flamengo, Fluminense e outras equipes, tornou-se depois um ótimo comentarista de TV. Desses que falam o tem na cabeça e não usam meias palavras para dizer o que pensam. A mesma personalidade exibida em campo, Carlos Alberto mostrava em seu trabalho jornalístico. Aliás, personalidade é uma só. Quem a possui, a tem em todas as circunstâncias da vida. E personalidade era o que não faltava ao Capitão do Tri. Brilhando nos clubes, na seleção era o capitão de todos os brasileiros. O eterno Capita.

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Adeus, Capita

A implacável internet trouxe a notícia inesperada: morreu Carlos Alberto Torres, grande ídolo do Santos e do Fluminense, capitão do tricampeonato mundial, no México. Aos 72, de infarto fulminante, leio, ainda estarrecido.

Outro dia mesmo, discutia com parentes quem havia sido o maior lateral-direito da história. Muita gente falou em Djalma Santos, alguns em De Sordi, mas a maioria fechou com Carlos Alberto. Eu nunca tive dúvidas. Mesmo porque ele foi o primeiro lateral moderno de quem se tem notícia. Saía da defesa armando o jogo, não se contentava em marcar o ponta, como era uso. Na minha seleção dos sonhos, Carlos Alberto está na direita e Nílton Santos na esquerda.

E ninguém que ame o futebol vai jamais esquecer aquele gol de Carlos Alberto, o quarto contra a Itália, em que a bola passou de pé em pé, até que Pelé, sem olhar, empurrou-a para a direita, para seu companheiro de clube. O chute, com a parte de fora do pé, matou o goleiro italiano e decretou que o caneco, afinal, seria nosso para sempre. O próprio Carlos Alberto ergue a Jules Rimet, que, afinal, acabou roubada da sede da CBF e derretida pelos ladrões, segundo se acredita.

Quem viu o seu futebol, ficará para sempre agradecido. Muito obrigado, Capita, vá em paz.

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Autoridade ou autoritarismo?

Que os juízes de futebol precisam manter sua autoridade em campo não se discute. O jogo é acirrado, de contato, com regras sujeitas a interpretações – quer dizer cada lado pode dizer que tem razão. Por isso se precisa de um árbitro. E alguém que possa exercer sua autoridade, de maneira sóbria.

Muito diferente do autoritarismo que o senhor Rodrigo Batista Raposo, aspirante à Fifa, mostrou em campo ontem na partida entre
Internacional e Santos.

Não queria conversa com ninguém. Sacava o cartão amarelo com a desenvoltura de um xerife do Velho Oeste sacando seu Colt. E assim foi detonando jogadores e prejudicando os times. E, claro, arruinando o jogo em si.

Mas o máximo ocorreu na expulsão de Lucas Lima. O santista já havia sido advertido por retardar o jogo. Ora, não tem sentido acusar de “cera” um retardo ainda no início da partida. Depois, Lima foi cobrar um escanteio e, já perto da bola, desistiu e passou a tarefa a outro companheiro. O ato foi interpretado como cera por Sua Excelência e o jogador recebeu a segunda advertência, sendo expulso de campo.

Sempre se diz que a melhor arbitragem é aquela que não interfere no resultado. Ou ainda, que o bom árbitro é aquele que não aparece no jogo.

Pois bem, o sr. Raposo, ao encenar essa pantomina de “otoridade”, prejudicou o jogo que apitava, influiu decisivamente no resultado da partida e decidiu transformar-se em protagonista de um espetáculo no qual é coadjuvante natural. Lucas Lima e mais dois advertidos com cartão, Vitor Ferraz e Ricardo Oliveira, desfalcam o Santos contra o Corinthians, no domingo.

Tão rigoroso ao punir retardo do jogo ou faltas disciplinares, Sua Senhoria era mais leniente com o jogo violento em campo. Entradas duras mereciam apenas advertências verbais. Ou seja, foi o anti-juiz da partida.

Lamentável.

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